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Desde sempre usamos venenos

Desde sempre usamos venenos: o emprego de substâncias tóxicas é tão ancestral quanto a própria história da humanidade.

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Página de abertura: Desde sempre usamos venenos

O emprego de venenos e substâncias tóxicas é tão ancestral quanto a própria história da Humanidade. Diversas descobertas arqueológicas comprovaram que nossos ancestrais mais remotos conceberam métodos para incorporar às suas ferramentas rudimentares e armas substâncias químicas letais destinadas a maximizar a eficácia na caça (ou certamente nos confrontos territoriais com adversários). Essa prática foi evidenciada pela identificação microscópica de ranhuras longitudinais e orifícios intencionais

nos artefatos líticos e ósseos resgatados. E, sendo a espécie humana um paradigma de permanente evolução biológica e cultural, os venenos também acompanharam essa trajetória, ora integrando sentenças capitais formais do poder instituído, ora servindo como artifício silencioso e ardiloso para aniquilar rivais de proximidade política. É natural supor que, no instante em que as comunidades primitivas perceberam que determinadas substâncias causavam a morte sem

deixar vestígios ou sinais exteriores exuberantes, o instinto de preservação entrou em ação. Nesse contexto desponta a figura histórica de Mitrídates VI Eupátor, rei do Ponto, que por volta do século I a.C. conduziu meticulosos ensaios empíricos de tentativa e erro (envenenamentos induzidos em prisioneiros e opositores), culminando na formulação de um antídoto polivalente denominado 'Mithridatium', composto pela infusão de dezenas de extratos vegetais, seivas e

cascas de árvores medicinais. O tratado foi levado a Roma após a derrota pôntica, sendo posteriormente traduzido para o latim e estudado por naturalistas e cientistas romanos, notadamente Plínio, o Jovem. Encontram-se historicamente documentados os episódios de envenenamento fatal do imperador Cláudio, supostamente perpetrado por sua esposa Agripina, fato que propiciou a ascensão ao trono de Nero, governante que igualmente cultivava predileção pelo

uso de venenos — particularmente o cianeto — para silenciar opositores e familiares próximos quando neles vislumbrava pretensões ao poder imperial. Na mesma época histórica situa-se a célebre passagem de Cleópatra VII, última soberana da dinastia ptolemaica, cujo suicídio teria sido provocado pela picada intencional de uma áspide (a temida cobra-egípcia Naja haje). Muito embora a perícia forense jamais tenha estabelecido com certeza irrefutável a causa biológica de seu passamento, o episódio consolidou-se indelevelmente no imaginário da civilização com a aura de lenda trágica. Assumimos um anacronismo deliberado para encerrar esta narrativa com o mais emblemático julgamento por envenenamento de toda a Antiguidade Clássica. Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.), figura basilar do pensamento filosófico ocidental, foi condenado à pena capital pela Assembleia de Atenas sob a acusação de impiedade e corrupção da juventude, em meio às tensões políticas decorrentes da tirania de Crítias. Para a execução da sentença, elegeu-se uma planta da família das apiáceas conhecida como cicuta (Conium maculatum), vegetal cuja toxicidade decorre da elevada concentração de coniína, alcaloide piperidínico letal em pequenas dosagens. Trata-se de uma potente neurotoxina que paralisa o Sistema Nervoso Central, desencadeando o quadro patológico denominado 'cicutismo'. O relato transmitido por seus discípulos

mais proeminentes, Platão e Xenofonte (cumpre registrar que nenhum dos dois testemunhou ocularmente a execução), descreve que, após ingerir a taça contendo o extrato da raiz da planta, 'sua vida extinguiu-se com serenidade admirável enquanto dissertava sobre a imortalidade da alma'. Investigações toxicológicas modernas, no entanto, demonstraram que o óbito por ingestão de cicuta reveste-se de dor atroz: a estimulação inicial do Sistema Nervoso Central desencadeia tremores musculares intensos, dores neurálgicas, alucinações e convulsões espasmódicas, evoluindo para a paralisia motora dos músculos da respiração que culmina em asfixia

fulminante. Em razão dessas evidências farmacológicas, historiadores modernos questionam a veracidade literal dos testemunhos platônicos registrados no diálogo Fédon, surgindo hipóteses de que o veneno pudesse conter misturas de cicuta associada ao ópio para mascarar a agonia e preservar a narrativa de uma passagem heroica e impassível. O fato inconteste é que a ciência forense retrospectiva depara-se com limitações insuperáveis para quantificar a dor de personalidades históricas ceifadas por substâncias tóxicas, uma vez que o silêncio da morte suprime os relatos sintomatológicos.

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