Efeitos de formulações inseticidas frente a escorpiões
Os escorpiões são animais noturnos e predadores eficientes que se refugiam durante o dia sob pedras, cascas de árvores, entulhos e frestas estruturais.
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Os escorpiões são aracnídeos facilmente reconhecíveis, aparentados com aranhas, ácaros e carrapatos. Esses animais tornaram-se uma das pragas de maior relevância para a saúde pública, sendo responsáveis pela grande maioria das mortes anuais causadas por artrópodes peçonhentos no mundo, superados apenas por cobras e abelhas. A presença de escorpiões compromete seriamente a qualidade de vida das pessoas, gerando pânico e constante apreensão quando invadem habitações, comércios e instalações industriais. Nas regiões onde são comuns, as empresas controladoras de pragas investem expressivos esforços no combate às infestações. A maioria dos escorpiões habita zonas áridas e temperadas, mas diversas espécies ocorrem em florestas tropicais úmidas. Nos Estados Unidos e em grande parte da América Latina, os membros do gênero Centruroides configuram os escorpiões mais frequentes. Dentro desse grupo, o escorpião-casca-do-arizona (Centruroides sculpturatus) é a espécie de maior importância médica nos EUA, com 185.402 casos de envenenamento registrados nos Estados Unidos. HABITATS DOS ESCORPIÕES: Os escorpiões são animais noturnos que durante o dia procuram refúgio em locais escuros e protegidos, tais como sob pedras, cascas de árvores caídas, pilhas de lenha ou escombros e fendas estruturais em edificações. Em áreas urbanizadas, eles encontram abrigo e alimento abundante, principalmente baratas e outros artrópodes sinantrópicos, o que favorece o estabelecimento de infestações no peridomicílio e no interior das residências. Quando o ser humano entra em contato acidental com esses aracnídeos, ocorrem acidentes por picadas que representam uma séria ameaça à saúde pública, sobretudo em crianças e idosos, devido à ação das toxinas presentes no veneno. O controle de escorpiões sempre foi considerado um desafio complexo no Manejo Integrado de Pragas Urbanas (MIPU), gerando debates contínuos entre profissionais e pesquisadores acerca da eficácia real dos praguicidas químicos. Para avaliar o impacto de formulações inseticidas comerciais sobre o comportamento, dispersão e mortalidade de escorpiões, foram conduzidos estudos rigorosos em laboratório com Centruroides sculpturatus. EXPERIMENTO 1: RESPOSTA A ÁREAS TRATADAS. No primeiro ensaio, avaliou-se a resposta comportamental dos escorpiões quando expostos a diferentes superfícies tratadas com inseticidas comumente utilizados no mercado. Foram testadas formulações à base de piretroides microencapsulados e concentrados emulsionáveis: Demon Max (cipermetrina CE, concentração de IA: 0,02%), Demand CS (lambdacialotrina microencapsulada CS, concentração de IA: 0,03%) e a mistura em tanque de Demand CS (0,03%) com Demon Max (0,02%). O experimento foi realizado no escuro durante 20 minutos, utilizando uma câmera infravermelha e dois iluminadores de luz infravermelha posicionados sobre arenas experimentais de 30 cm x 30 cm divididas em duas metades (uma metade tratada com inseticida na dosagem recomendada e a outra metade controle tratada apenas com água destilada). Para o rastreamento e análise quantitativa da locomoção dos escorpiões, utilizou-se o software automatizado EthoVision. Uma vez encerrado o período de 20 minutos de avaliação, os escorpiões foram transferidos individualmente para recipientes plásticos ventilados para acompanhamento da mortalidade diária ao longo de 10 dias, correlacionando o tempo de contato e a mortalidade. A Figura 2 ilustra as arenas utilizadas: no canto superior esquerdo observa-se um escorpião aproximando-se da área tratada; no canto superior direito, o trajeto registrado por vídeo durante os 20 minutos de bioensaio; abaixo, a arena com o abrigo tratado. EXPERIMENTO 2: RESPOSTAS A ABRIGOS TRATADOS COM INSETICIDA. O objetivo deste ensaio foi determinar se os escorpiões escolheriam se esconder em um abrigo tratado com inseticida. Este ensaio simulou os tratamentos de frestas e fendas habitualmente recomendados nos programas de manejo integrado de escorpiões (MIE). A arena apresentava dimensões semelhantes às do Experimento 1; contudo, a única área tratada na arena era um abrigo confeccionado em papel cartão de 7,5 cm x 12,5 cm posicionado no centro da área experimental. Foram instaladas lâmpadas fluorescentes sobre as arenas que permaneceram acesas durante 12 horas para simular a luz diurna e estimular os escorpiões a procurarem refúgio no abrigo tratado com inseticidas. Após 12 horas de bioensaio, registrou-se a localização exata de cada escorpião (escondido no interior do abrigo ou perambulando na arena aberta). Os escorpiões foram então transferidos para recipientes de observação para determinação da mortalidade acumulada durante 10 dias. RESULTADOS: Em experimentos sobre concreto, os escorpiões passaram períodos equivalentes de tempo nas metades tratadas com Demon Max, Demand CS ou a mistura Demand CS + Demon Max em comparação com arenas controle não tratadas. A mortalidade dos escorpiões após o bioensaio em placas de concreto aos 10 dias foi de 0% com Demon Max, 70% com Demand CS e 40% com a mistura Demand CS + Demon Max. Já nos bioensaios sobre cerâmica esmaltada lisa, os escorpiões tenderam a evitar caminhar sobre as metades tratadas com inseticida e adotaram com frequência uma postura característica em 'pernas de pau' ou 'na ponta dos pés' (tip-toe) ao entrar em contato com os depósitos inseticidas. Os escorpiões que interagiram com as superfícies tratadas com Demon Max não morreram. Em contrapartida, registrou-se alta mortalidade (90%) nos escorpiões em arenas cujas metades haviam sido tratadas com Demand CS. Todavia, essa mortalidade reduziu-se para 70% quando se utilizou a mistura de Demand CS com Demon Max. A Figura 4 detalha a postura típica dos escorpiões ao entrarem em contato com superfícies tratadas: em 3A, a postura normal em repouso de um escorpião não exposto, com o corpo totalmente rente ao substrato; em 3B, o escorpião começa a andar nas pontas das patas, mantendo o corpo elevado para minimizar o contato da cutícula ventral com os resíduos químicos; em 3C, resposta extrema de aversão e elevação máxima corporal para evitar a contaminação. EXPERIMENTO 2 (CONTINUAÇÃO): RESPOSTAS A ESCONDERIJOS TRATADOS. Após 12 horas de iluminação contínua, todos os escorpiões do grupo controle (abrigos não tratados) foram encontrados alojados no interior do abrigo, ao passo que a grande maioria dos escorpiões evitou abrigar-se nos esconderijos tratados com inseticidas. Observou-se uma baixa proporção de escorpiões escondidos em abrigos tratados com Demon Max (20%) ou Demand CS + Demon Max (30%), e absolutamente nenhum escorpião procurou refúgio nos abrigos tratados com Demand CS puro. Não obstante a baixa taxa de permanência no interior do abrigo nas arenas com Demand CS ou na mistura, esses escorpiões apresentaram expressiva mortalidade acumulada (≥80%) aos 10 dias pós-exposição. Isso indica com clareza que a maioria desses espécimes permaneceu tempo suficiente em contato com os depósitos do inseticida ao investigar a entrada do esconderijo, absorvendo dose letal durante as 12 horas. A mortalidade dos escorpiões foi mínima (10%) nos testes com Demon Max. IMPLICAÇÕES DO ESTUDO: Em condições ecológicas naturais, os escorpiões passam a maior parte do tempo recolhidos em frestas e tocas escuras, saindo à noite para caçar insetos. É durante essa movimentação noturna que podem entrar em contato com os depósitos residuais de praguicidas previamente aplicados. Embora se presuma amplamente no mercado que qualquer inseticida pulverizado seja letal para escorpiões, sabe-se muito pouco sobre como os resíduos alteram o comportamento desses artrópodes, fator que determina em última análise a eficácia real do tratamento a campo. Os escorpiões evitam exposições prolongadas afastando-se ativamente das superfícies tratadas ou assumindo a postura 'na ponta dos pés'. Se o inseticida for excessivamente irritante e repelente, os escorpiões se dispersam para áreas vizinhas não tratadas, reduzindo a eficácia do programa e aumentando o perigo de acidentes para os moradores. Nas avaliações sobre concreto poroso, os escorpiões permaneceram mais tempo sobre o piso tratado do que sobre cerâmica lisa; contudo, os inseticidas são fortemente absorvidos nos poros do cimento, reduzindo a biodisponibilidade superficial do ingrediente ativo. Esse fenômeno ocorreu com nitidez nas formulações convencionais. Todavia, em ambos os tipos de superfície, o Demand CS proporcionou a maior taxa de mortalidade em escorpiões, resultado atribuído à tecnologia de microencapsulamento que protege o ingrediente ativo da degradação e absorção pelo substrato. Em todos os ensaios de abrigo, a maioria dos escorpiões foi encontrada fora do abrigo tratado, muitos perambulando com claros sinais de intoxicação neurotóxica por piretroides (tremores, espasmos e incoordenação), confirmando que o contato na fresta foi suficiente para intoxicá-los. Conclui-se, portanto, que os tratamentos localizados e direcionados a frestas, fendas, caixas de passagem e alicerces estruturais com formulações microencapsuladas são altamente eficazes e devem ser a base do controle químico integrado de escorpiões. Alvaro Romero é Médico Veterinário, Mestre em Entomologia Veterinária e PhD em Entomologia Urbana, Professor Associado na New Mexico State University (NMSU), Las Cruces, NM. John Agnew e Brittny Blakely são pesquisadores de pós-graduação na mesma universidade. Dr. Eric Paysen é Gerente de Serviços Técnicos da Syngenta. Estudo financiado pela Syngenta. Os produtos mencionados podem apresentar diferentes registros conforme a legislação de cada país. Artigo traduzido por Alvaro Romero para o espanhol com autorização da Pest Control Technology a partir do original 'Arizona Bark Scorpions And Their Responses to Insecticides'.
Os segmentos de PVC usados no experimento tinham 25 cm de diâmetro e 5 cm de altura. Foram avaliados Demon® Max (25,3% de cipermetrina; concentração de ingrediente ativo usada: 0,02%), Demand® CS (9,7% de lambda-cialotrina; concentração usada: 0,03%) e a mistura de Demand CS (0,03%) com Demon Max (0,02%). A análise da atividade dos escorpiões utilizou o software EthoVision XT versão 11.5. As referências às figuras 01, 02, 03, 04 e 05 correspondem aos registros do experimento.
