Roedores · 22 de maio de 2026

Risco de transmissão de hantavírus e leptospirose por contato com roedores em ambientes urbanos

Os roedores representam uma ameaça significativa à saúde pública em ambientes urbanos devido à sua capacidade de transmitir diversas zoonoses.

Resumo técnico

Foco
Os roedores representam uma ameaça significativa à saúde pública em ambientes urbanos devido à sua capacidade de transmitir diversas zoonoses.
Abordagem
A nota organiza a análise em torno do Hantavírus em ambientes urbanos, Transmissão e fatores de risco e Manifestações clínicas.
Aplicação
Útil para profissionais que necessitam de contexto, diagnóstico e decisões operacionais em roedores.
Artigo sobre hantavírus, leptospirose e roedores urbanos
Índice
  1. Hantavírus em ambientes urbanos
  2. Transmissão e fatores de risco
  3. Manifestações clínicas
  4. Leptospirose e hantavírus: duas zoonoses, duas ecologias
  5. Desafios no contexto urbano atual

Os roedores representam uma ameaça significativa à saúde pública em ambientes urbanos devido à sua capacidade de transmitir diversas zoonoses. Entre as doenças mais relevantes estão o hantavírus e a leptospirose, ambas com potencial para causar surtos em áreas urbanas e periurbanas. Para um controle eficaz, é essencial distinguir entre roedores sinantrópicos (comensais humanos) e roedores selvagens, uma vez que cada grupo atua como reservatório para diferentes patógenos e requer estratégias de controle específicas.

A expansão urbana em áreas naturais, as condições inadequadas de saneamento e a crescente interface entre os ambientes urbanos e naturais criam cenários cada vez mais propícios à transmissão desses patógenos às populações humanas.

“A EXPANSÃO URBANA PARA ÁREAS NATURAIS, AS CONDIÇÕES INADEQUADAS DE SANEAMENTO E A CRESCENTE INTERFASE ENTRE OS AMBIENTES URBANOS E NATURAIS CRIAM CENÁRIOS CADA VEZ MAIS CONDICIONAIS PARA A TRANSMISSÃO DESTES PATOGÊNIOS.”

A Argentina atravessa atualmente uma das temporadas mais críticas de hantavírus dos últimos anos. De acordo com o último Boletim Epidemiológico Nacional (n.º 791; SE 1; 2026), durante o ano de 2025 foram confirmados 86 casos com 28 óbitos, registando-se uma taxa de letalidade de 33,6%, muito superior às épocas anteriores (período 2019 a 2024), onde a letalidade variou, com variações regionais, entre 10% e 32%.

A região Central (Buenos Aires, Santa Fé e Entre Ríos) está no limiar do surto, concentrando 22 casos confirmados na temporada 2025/2026 e representando 70% dos casos nacionais. A província de Buenos Aires é o epicentro do atual surto, com 35 casos confirmados em 2025 e uma taxa de letalidade de 34,3% (12 mortes). A cidade de La Plata registrou a maior concentração com 11 casos confirmados. As áreas de maior concentração incluem La Plata e Berisso, o Delta e Ilhas do Paraná, as zonas úmidas de Samborombón e áreas periurbanas.

Esta situação destaca a urgência de compreender corretamente os mecanismos de transmissão e os verdadeiros reservatórios desta doença, uma vez que a confusão entre roedores sinantrópicos e selvagens pode levar a estratégias inadequadas de prevenção e controle.

“NO CONTINENTE AMERICANO, TODOS OS HANTAVÍRUS QUE PRODUZEM SPH ESTÃO ASSOCIADOS A ROEDORES SELVAGENS NATIVOS.”

Hantavírus em ambientes urbanos

Os hantavírus são vírus RNA e causam duas doenças em humanos transmitidas por roedores: síndrome pulmonar por hantavírus (HPS) e febre hemorrágica com síndrome renal (HFRS). Cada espécie de hantavírus tem uma espécie de roedor como hospedeiro intermediário e sua transmissão varia significativamente entre os continentes. Na Europa e na Ásia, alguns hantavírus, como o vírus Seul, estão associados a Rattus norvegicus (rato marrom) e Rattus rattus (rato preto), que são espécies tipicamente sinantrópicas urbanas e podem causar FHSR, mas na América Latina não é o hantavírus predominante e nenhum caso foi registrado em humanos.

No continente americano, todos os hantavírus que produzem SPH estão associados a roedores silvestres nativos, que não são sinantrópicos, embora possam aproximar-se de áreas periurbanas quando seus habitats naturais são perturbados pela expansão urbana. Em nosso país, os roedores do gênero Oligoryzomys, comumente chamados de “cauda longa”, são os reservatórios comumente associados à doença.

Suas características distintivas são a cauda (entre 11-15 cm) mais longa que o resto do corpo (entre 8-12 cm), orelhas arredondadas e pelagem de cor ocre com tons avermelhados. São granívoros-herbívoros e noturnos. Sabe-se que o hantavírus é transmitido de roedores para humanos; No entanto, alguns relatórios da Argentina e do Chile indicaram que a cepa andina do hantavírus pode causar a transmissão da doença entre humanos, conforme documentado como parte do surto de 1996 em El Bolsón e Epuyén, no sul da Argentina.

“A CONFUSÃO ENTRE ROEDORES SINANTRÓPICOS E SELVAGENS PODE LEVAR A ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO E CONTROLE INADEQUADAS.”

Transmissão e fatores de risco

A transmissão do hantavírus ocorre principalmente pela inalação de partículas virais em aerossol presentes na urina, fezes e saliva de roedores infectados. Na América Latina, isto acontece quando roedores selvagens entram em espaços fechados ou mal ventilados, como casas periurbanas, galpões ou armazéns rurais em zonas de transição urbano-rurais. Ao contrário dos ratos comensais que habitam permanentemente edifícios urbanos, os roedores selvagens são visitantes ocasionais atraídos pela disponibilidade de alimentos.

Embora menos frequente, a transmissão também pode ocorrer através de picadas ou contato direto com roedores infectados ou suas excretas, principalmente quando há lesões na pele. O principal fator que aumenta o risco de contágio é a expansão urbana para áreas naturais, pois aumenta a probabilidade de contato entre humanos e roedores silvestres. Este risco é amplificado por habitações com deficiências estruturais que facilitam a entrada de roedores e por áreas com vegetação densa que proporcionam habitat adequado para estas espécies. As profissões com o nível mais elevado de exposição incluem trabalhadores agrícolas e florestais, pessoal de limpeza e coleta de resíduos em áreas periurbanas e controladores de pragas.

“O PRINCIPAL FATOR QUE AUMENTA O RISCO DE CONTAGIO É A EXPANSÃO URBANA PARA ÁREAS NATURAIS.”

Manifestações clínicas

No atual surto de HPS na Argentina, foi observada uma taxa de mortalidade excepcionalmente elevada de 33,6%, com diferenças por faixa etária. Os sintomas mais frequentes relatados incluem febre superior a 38,5 °C (95% dos casos), mialgia (71%), cefaleia (57%), vómitos (52%) e artralgia (48%). A gravidade do quadro está frequentemente relacionada com o diagnóstico tardio, razão pela qual as autoridades de saúde sublinham a importância da consulta precoce em caso de sintomas compatíveis e histórico de exposição a áreas de risco.

Leptospirose e hantavírus: duas zoonoses, duas ecologias

A diferença fundamental entre as duas zoonoses é que a leptospirose é uma doença urbana transmitida por roedores sinantrópicos (ratos comensais), enquanto o hantavírus, como mencionei anteriormente, é periurbano-rural, transmitido por roedores silvestres nativos.

Roedores sinantrópicos urbanos, especialmente Rattus norvegicus, excretam a bactéria (Leptospira interrogans) na urina, contaminando a água e o solo. A transmissão ocorre pelo contato com água ou solo contaminado, entrando através de lesões na pele ou nas mucosas. A doença está claramente associada a ambientes urbanos com infraestruturas sanitárias precárias. As inundações urbanas são o principal fator de risco, dispersando bactérias e aumentando a exposição humana.

A leptospirose apresenta forma leve (90% dos casos) que se caracteriza por quadro febril, enquanto a forma grave ou doença de Weil (5-10%) manifesta icterícia, insuficiência renal e hemorragias, com mortalidade de 10-15%. Existem diferenças importantes na ecologia dos reservatórios de roedores entre ambas as zoonoses. No caso da leptospirose, espécies de roedores sinantrópicos como o rato pardo (R. norvegicus), o rato preto (R. rattus) e o camundongo doméstico (Mus musculus) habitam permanentemente ambientes urbanos, pois dependem quase exclusivamente do homem para sua sobrevivência.

“A LEPTOSPIROSE É UMA DOENÇA URBANA TRANSMITIDA POR ROEDORES SINANTRÓPICOS, ENQUANTO O HANTAVIRUS É PERIURBANO-RURAL, TRANSMITIDO POR ROEDORES SELVAGENS NATIVOS.”

Os principais fatores ambientais que favorecem a sua proliferação são a presença de resíduos orgânicos, águas estagnadas e estruturas deterioradas. Em contraste, os roedores selvagens que são reservatórios de hantavírus, como os roedores de cauda longa (Oligoryzomys spp.) e outros cricetídeos nativos, habitam ambientes naturais com incursões ocasionais em áreas periurbanas. A sua proliferação depende da disponibilidade de vegetação, sementes e insetos como recursos alimentares, enquanto a perturbação dos seus habitats naturais devido à expansão urbana aumenta a interação com as populações humanas e, consequentemente, o risco de transmissão.

Dadas estas diferenças ecológicas, cada zoonose requer estratégias de prevenção específicas. Para a leptospirose, o controle baseia-se em: 1) manejo integrado de roedores urbanos, 2) melhorias nos sistemas de drenagem e esgoto, 3) manejo adequado de resíduos sólidos, 4) medidas de proteção durante enchentes e 5) educação sobre os riscos associados ao contato com água contaminada. Em contraste, a prevenção do hantavírus centra-se em: 1) controle ambiental em áreas periurbanas, 2) manutenção de zonas tampão entre áreas urbanas e habitats naturais, 3) vedação hermética de estruturas em áreas periurbanas, 4) educação sobre identificação e riscos de roedores selvagens, e 5) protocolos de limpeza segura em galpões e armazéns rurais.

Desafios no contexto urbano atual

As alterações climáticas estão modificando os padrões de transmissão destas zoonoses de forma diferenciada. Por um lado, o aumento da frequência e intensidade das inundações urbanas aumenta exponencialmente o risco de leptospirose, enquanto as temperaturas mais altas prolongam os períodos de sobrevivência ambiental das leptospiras na água e no solo. Por outro lado, as alterações climáticas alteram a ecologia dos roedores selvagens, modificando os seus ciclos populacionais e áreas de distribuição, o que aumenta o contato com populações humanas em áreas periurbanas e o consequente risco de transmissão do hantavírus.

Simultaneamente, o crescimento urbano não planejado agrava ambos os problemas: gera assentamentos precários onde proliferam roedores sinantrópicos (aumentando o risco de leptospirose) e expande a interface urbano-rural, intensificando o contato com a vida selvagem, reservatórios de hantavírus. Estas doenças afetam desproporcionalmente as populações mais vulneráveis ​​e de baixa renda, evidenciando um problema de iniquidade na saúde.

A abordagem eficaz destas zoonoses requer uma integração transdisciplinar que articule a saúde humana, a saúde animal (incluindo a ecologia da vida selvagem), a gestão ambiental, o planejamento urbano e o desenvolvimento social. O contexto atual de alterações climáticas e de urbanização acelerada coloca desafios crescentes que exigem estratégias inovadoras e sustentáveis ​​baseadas na abordagem One Health, que reconhece as diferentes ecologias dos roedores e dos seus agentes patogênicos como ponto de partida para intervenções específicas.

Neste quadro, a pesquisa contínua sobre a ecologia dos roedores sinantrópicos e selvagens, a dinâmica de transmissão e a eficácia de intervenções diferenciadas é essencial para desenvolver políticas de saúde pública baseadas em evidências. A redução do risco de transmissão destas zoonoses constitui um componente essencial para a construção de ambientes urbanos saudáveis, resilientes e equitativos, especialmente para proteger as populações mais vulneráveis.