Fora bicho! Aedes aegypti e repelentes
Dentro da ordem Diptera encontra-se o maior número de insetos vetores de doenças humanas; entre eles os mosquitos constituem um grupo numeroso.
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Dentro da ordem Diptera encontra-se o maior número de insetos vetores de doenças humanas; entre eles os mosquitos constituem um grupo numeroso e são responsáveis pela transmissão de diversas arboviroses.
O mosquito Aedes aegypti, de ampla distribuição em nosso território, é transmissor de Zika, Febre Amarela, Chikungunya e Dengue. As espécies Culex pipiens, Culex quinquefasciatus e outros, pertencentes ao complexo Pipiens, atualmente renomeado como Pipiens Assemblage, são os principais vetores de doenças reemergentes de distribuição global, tais como a Febre do Nilo Ocidental, a Encefalite de Saint Louis, outras diversas encefalites e filarioses. Recentemente, foram incriminados também na transmissão do vírus Zika.
São insetos de ampla distribuição que produzem alto impacto na saúde pública devido à sua hematofagia obrigatória, à sua máxima adaptabilidade a múltiplos ambientes em diferentes latitudes e altitudes, à sua estreita relação com o homem e à sua grande variabilidade de hospedeiros escolhidos para sua alimentação e nos quais podem disseminar os patógenos que vectorizam.
As estratégias atuais para diminuir a prevalência dessas doenças baseiam-se no manejo do inseto vetor. É possível diminuir a população dos insetos, controlando estágios imaturos e adultos, ou também evitando que as fêmeas de hábito hematófago piquem as pessoas. Essa aproximação baseia-se em diminuir a interação dos mosquitos vetores de doenças com o hospedeiro humano, desenvolvendo produtos de origem natural ou artificial com atividade repelente que, aplicados de maneira tópica ou espacial, impeçam as espécies de mosquito em estudo de entrar em contato com os seres humanos e assim diminuir o risco de transmissão dessas arboviroses.
O que é um repelente de insetos?
O emprego de produtos repelentes para prevenir a picada de artrópodes é provavelmente proporcional à percepção pública da ameaça diante dessa picada, que pode consistir em forma de incômodo ou pelo risco da transmissão de doenças. A conexão entre a percepção e o uso resulta lógica quando se considera que os repelentes são empregados como ferramenta de proteção pessoal: é o indivíduo quem decide quando utilizá-lo ou não, qual repelente empregar, como fazê-lo e com que frequência.
A primeira linha de defesa que é possível constituir entre os artrópodes e os humanos é o uso de repelentes. Não requerem equipamento nem uma organização da comunidade, nem em particular dos órgãos executores de controle de vetores.
O termo “repelente” deriva do latim repellere, que significa afastar. Dethier define em 1948 repelente como “estímulo que elicia uma ação de evasão” ou “substância que faz com que um inseto realize movimentos orientados que o afastam da fonte que a emite”.
No campo da entomologia médica, é comum observar em algumas publicações termos tais como irritante ou excito-repelência para se referir à atividade hiperlocomotora que se observa em insetos expostos a inseticidas. Em 2007, Grieco introduziu dois novos termos, irritante por contato e repelente espacial, para se referir àqueles compostos químicos que fazem com que um inseto se afaste da fonte de estímulo, mediante o tato ou o odor respectivamente.
O modo de ação dos repelentes ainda é um tema controverso. No entanto, estudos eletrofisiológicos e aproximações moleculares têm significado um grande avanço no conhecimento de como as substâncias repelentes exercem sua ação. Por exemplo, o DEET mascara a resposta dos receptores olfatórios aos atrativos. Essa ideia está consolidada pela observação de que o DEET diminui a sensibilidade tanto ao ácido lático, componente do suor humano, quanto ao propionato de etila, um atrativo de oviposição.
Os repelentes químicos ou de síntese são reconhecidos como os mais eficazes por atividade e duração. Alguns deles são absorvidos e chegam ao sangue, embora as reações adversas sejam pouco frequentes.
Um repelente ideal deve ser efetivo, de longa duração e que afaste um amplo espectro de insetos; seguro, não tóxico, não irritante e de baixa absorção; com boas condições cosméticas, incolor, inodoro e de agradável sensação para a pele; compatível com outros materiais, que não seja solvente para plásticos; e de fácil formulação, com boa solubilidade, alta estabilidade e sem corrosividade. Nenhum repelente disponível reúne todas essas propriedades, embora haja diferentes produtos que apresentam parte dessas características.
Quais tipos de repelentes estão disponíveis em nosso ambiente?
Segundo diferentes organismos internacionais, os repelentes de aplicação tópica contra insetos podem ser classificados em categorias: repelentes sintéticos convencionais, repelentes de origem biológica e repelentes espaciais.
Repelentes sintéticos convencionais
DEET (NN, dietil-3-metilbenzamida o NN, dietil-m-toluamida)
A N,N-dietil-m-toluamida, princípio ativo da maioria dos repelentes comerciais, é uma molécula utilizada há vários anos em todo o mundo contra insetos hematófagos. Constitui o padrão de referência dos repelentes recomendados pela OMS. É eficaz para a maioria das espécies de insetos e aracnídeos.
No entanto, seu uso tem algumas desvantagens: odor desagradável, penetração pela pele e até se informaram efeitos potencialmente carcinogênicos sob condições extremas de uso excessivo. Além disso, o DEET reage com certos plásticos e borrachas sintéticas, atacando-os consideravelmente.
Apesar de sua grande efetividade, buscam-se repelentes alternativos ao DEET, dado que foram informados dados que fazem duvidar de sua segurança toxicológica. Responsabilizou-se o DEET por produzir encefalopatias em crianças e neurotoxicidade; contudo, esses episódios são raros e em geral estavam ligados a um uso excessivo ou incorreto do DEET.
Icaridina (carboxilato de hidroxietil isobutil piperidina)
É um derivado da pimenta, utilizado em concentrações que oscilam entre 10 e 20%, que apresenta atividade contra carrapatos, mosquitos e moscas. Concretamente, em alguns estudos utilizando concentrações iguais ou superiores a 20%, observou-se que apresenta proteção frente a espécies de mosquitos dos gêneros Aedes, Culex e Anopheles durante 6 horas.
Tem toxicidade muito baixa, não é gorduroso e o odor não é desagradável. Não danifica plásticos nem tecidos.
Repelentes de origem biológica
Citronela
É um óleo essencial de origem vegetal encontrado em muitos repelentes de insetos baseados em produtos vegetais. O óleo de citronela é extraído das plantas Cymbopogon nardus e Cymbopogon winterianus. Desconhece-se com exatidão o mecanismo pelo qual se produz a atividade repelente.
Em geral, os repelentes à base de citronela proporcionam consideravelmente menos tempo de proteção do que os repelentes com DEET; portanto, requerem aplicações mais frequentes para manter a eficácia. O óleo de citronela é pouco tóxico e sua aplicação tópica não costuma provocar reações adversas. Em nosso meio, a citronela normalmente é comercializada associada a outros repelentes mais eficazes.
Citriodiol o PMD (p-metano-3,8 diol)
Obtém-se de uma variedade de Eucalyptus (Eucalyptus citriodora) que gera um composto químico com capacidade repelente. Há estudos demonstrando que preparados com 20% de citriodiol poderiam ser equivalentes em eficácia e duração de ação a preparados de DEET a 20%.
Algumas formulações em concentrações de 30% oferecem proteção contra espécies de mosquitos dos gêneros Aedes, Culex e Anopheles durante 4 a 6 horas. Este composto é um bom repelente contra muitos insetos e aracnídeos: mosquitos, moscas, piolhos, pulgas e carrapatos. Tem odor agradável, não apresenta efeitos adversos importantes, mas pode produzir irritação ocular.
Em geral, é viável a formulação tópica ou de uso espacial de substâncias repelentes de origem natural com comprovada eficácia mensurada em capacidade repelente e residualidade comparável aos repelentes de síntese hoje formulados no mercado. Essas substâncias poderão ser formuladas como blend de componentes ou enriquecidas naqueles compostos que demonstrem maior atividade. Muitos desses óleos provêm também de espécies de Eucalyptus.
A composição química dos componentes de óleos essenciais de espécies vegetais apresenta marcadas diferenças não apenas entre espécies, mas também conforme as condições em que a planta se desenvolve, a época do ano, as condições de estresse a que a planta foi submetida e o ataque de espécies xilófagas, entre outros fatores.
IR3535
O IR3535, 3-N-butil-n-acetil aminopropionato de etila, é um repelente de insetos sintético que se classifica adicionalmente como biopesticida pela EPA. A agência classificou o IR3535 como substância bioquímica baseada no fato de que é funcionalmente idêntica à beta-alanina: ambos repelem insetos e os grupos terminais do IR3535 não têm probabilidade de contribuir para toxicidade.
O IR3535 é ativo contra mosquitos, carrapatos e moscas que picam. Há estudos demonstrando proteção de 70 a 90 minutos contra espécies de Aedes em concentrações superiores a 20% e de entre três horas e meia e seis horas e meia contra espécies do gênero Culex. A proteção contra carrapatos foi estabelecida durando entre 30 minutos e 4 horas numa concentração de 7,5%.
Cabe destacar que para espécies de Anopheles, mosquito transmissor do paludismo, o tempo de proteção é de cerca de 3 horas. Isso faz com que não seja recomendado em áreas endêmicas de malária ou paludismo. A toxicidade deste repelente é mínima e só se notificaram até o momento reações cutâneas leves. Cabe assinalar que se trata de um irritante ocular.
Repelentes espaciais
Os repelentes espaciais são substâncias que em fase gasosa previnem o contato humano-vetor alterando os padrões de comportamento normal do vetor numa área designada, zona segura, tornando o espaço inadequado para o inseto. Isso dissuade o vetor de entrar num espaço ocupado por um potencial hospedeiro humano, reduzindo os encontros entre humanos e vetores, eliminando ou minimizando a probabilidade de transmissão de patógenos aos insetos ou aos humanos.
A transmissão de uma doença poderia ser reduzida devido ao fato de que os mosquitos se veem obrigados a buscar hospedeiros não humanos que não são reservatórios do patógeno e/ou se veem afetadas suas taxas de alimentação, reprodução e sobrevivência, já que os hospedeiros humanos são difíceis de acessar e não há fontes alternativas de sangue disponíveis.
Entre os repelentes espaciais mais usados encontram-se alguns inseticidas, como a aletrina, e derivados vegetais, óleos essenciais como Citronella sp. e Cymbopogon sp., ou seus componentes, por exemplo o eugenol.
Essa capacidade repelente pode ademais ser aproveitada em estratégias combinadas com armadilhas atrativas. O termo push-pull, empurrar-puxar, foi definido como estratégia para o controle de pragas de insetos por Pyke em 1987 na Austrália, que pesquisou o uso de estímulos repelentes e atrativos para manipular a distribuição de Helicoverpa spp. no algodão, reduzindo deste modo o emprego de inseticidas.
O objetivo das estratégias push-pull é orientar o movimento e controlar a distribuição e abundância de um inseto praga. O vetor é repelido para fora do recurso usando um estímulo que mascara a atratividade do hospedeiro ou o repelente. Simultaneamente, o vetor é atraído usando um estímulo altamente atrativo para outras áreas como armadilhas, onde se concentra facilitando sua eliminação. No caso dos mosquitos, podem ser utilizados outros hospedeiros preferidos ou repelentes de origem natural como estímulos que protegem o homem e, como estímulos atrativos, compostos do suor humano ou feromônios.
De atrativos e outros modificadores de comportamento falaremos nos próximos números.
