Algumas considerações sobre normas de inocuidade e exigências para o manejo de pragas
Durante grande parte da história, o controle alimentar baseou-se em inspeções visuais e na detecção de produtos alterados.
Resumo técnico
- Foco
- Durante grande parte da história, o controle alimentar baseou-se em inspeções visuais e na detecção de produtos alterados.
- Abordagem
- A nota organiza a análise em torno do manejo de pragas na Edição 9 da Inocuidade Alimentar do BRCGS, Prevenção como eixo do programa e Dos tratamentos à prevenção.
- Aplicação
- Útil para profissionais que necessitam de contextualização, diagnóstico e decisões operacionais em pragas urbanas.
Índice
Durante grande parte da história, o controle alimentar baseou-se em inspeções visuais e na detecção de produtos alterados. Porém, com o desenvolvimento da microbiologia no século XIX, graças a cientistas como Louis Pasteur, entendeu-se que microrganismos invisíveis poderiam causar doenças, dando origem aos primeiros controles científicos dos alimentos. Em meados do século XX, o crescimento da indústria de alimentos e do comércio internacional sublinhou a necessidade de estabelecer critérios uniformes. Em 1963, a Organização para a Alimentação e a Agricultura e a Organização Mundial da Saúde criaram a Comissão do Codex Alimentarius, considerada a base da regulamentação moderna em matéria de inocuidade alimentar. O Codex desenvolveu padrões, diretrizes e códigos de prática para proteger os consumidores e facilitar o comércio internacional.
Na década de 1960, a indústria aeroespacial impulsionou mudanças revolucionárias. A Pillsbury Company, em conjunto com a NASA, desenvolveu o sistema HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) para garantir alimentos absolutamente seguros para os astronautas. O HACCP substituiu a abordagem tradicional baseada na inspecção final por uma abordagem preventiva, centrada na identificação e controle dos perigos antes que estes ocorram. Durante as décadas de 1980 e 1990, o HACCP foi adotado globalmente por governos, órgãos reguladores e indústrias alimentares.
Ao mesmo tempo, surgiram programas de pré-requisitos, como limpeza e desinfecção, controle de pragas, manutenção sanitária, controle de fornecedores e formação de pessoal. Com a globalização dos mercados na década de 2000, surgiram sistemas de certificação mais robustos. Foram desenvolvidas normas reconhecidas pela Global Food Safety Initiative, como BRCGS Food Safety, FSSC 22000, SQF e IFS Food. Estas normas integraram o HACCP com sistemas de gestão, cultura de segurança, gestão de riscos e melhoria contínua. Atualmente, a inocuidade alimentar baseia-se em uma abordagem preventiva e científica que combina os Princípios Gerais de Higiene do Codex, HACCP, programas de pré-requisitos, avaliação de riscos, rastreabilidade, defesa alimentar, prevenção de fraude alimentar e cultura de segurança. As normas modernas procuram não só produzir alimentos seguros, mas também proteger a reputação das empresas e fortalecer a confiança dos consumidores e dos mercados internacionais. Em resumo, a evolução dos padrões de segurança passou da simples inspeção de produtos acabados para sistemas de gestão abrangentes baseados na prevenção, na ciência e na melhoria contínua, tornando-se um pilar fundamental da moderna indústria de alimentos.
Manejo de pragas na edição 9 de inocuidade alimentar do BRCGS
Se analisarmos detalhadamente alguma norma como a BRCGS Food Safety Issue 9, verificamos que esta dedica uma seção inteira à manejo de pragas, dentro do capítulo 4.14, estabelecendo requisitos específicos que procuram garantir que as organizações implementem sistemas preventivos, documentados e baseados em riscos.
Prevenção como eixo do programa
A filosofia da versão 9 é clara: o controle de pragas não deve mais concentrar-se em matar as pragas, mas em prevenir a sua presença através de uma abordagem abrangente de Manejo Integrado de Pragas (MIP). A norma exige que o manejo de pragas faça parte da cultura de segurança da organização e que esteja integrado aos programas de pré-requisitos, ao sistema HACCP, à gestão da infraestrutura, à manutenção, à limpeza e à melhoria contínua. O princípio fundamental do BRCGS é a prevenção, uma vez que a cláusula 4.14 começa com uma declaração contundente: “Toda a instalação deve ter um programa eficaz de gestão preventiva de pragas que minimize o risco de presença de pragas e permita uma resposta rápida a qualquer incidente.”
Dos tratamentos à prevenção
Durante muitos anos, as empresas avaliaram os seus programas de pragas com base no número de tratamentos realizados ou no número de iscos instalados. No entanto, a BRCGS V9 exige a demonstração de que a organização está trabalhando para evitar que pragas entrem, se estabeleçam e se reproduzam dentro das instalações. Isto envolve priorizar a exclusão física, o desenho sanitário, a manutenção preventiva, a gestão de resíduos, a limpeza, a remoção de abrigos, a remoção de fontes de água e a remoção de fontes de alimentos. Os tratamentos químicos são considerados uma ferramenta complementar e não a base do programa.
Escopo e responsabilidades
Quanto ao escopo do programa de manejo de pragas, a norma exige que o programa cubra toda a instalação e todas as pragas identificadas através da avaliação de risco, exigindo que o manejo de pragas seja administrado por pessoas competentes, que podem ser terceiros ou pessoal próprio com habilidades credenciadas. Quando é utilizada empresa externa, a BRCGS exige a existência de um contrato formal, que deve incluir escopo de serviço, frequência de visitas, responsabilidades do fornecedor, responsabilidades da planta, procedimentos de emergência, procedimentos de infestação e cumprimento da legislação vigente. Uma das constatações mais frequentes nas auditorias é a falta de definição de responsabilidades entre a empresa alimentícia e o fornecedor da praga.
Análise de tendências e melhoria contínua
Uma das principais diferenças entre os programas tradicionais e os exigidos pelo BRCGS é a obrigação de analisar tendências. Não basta recolher registros, mas sim gerar informações úteis que permita, a partir de um exercício crítico, analítico e interpretativo, a tomada de decisões. Outras questões importantes são a exigência de avaliações periódicas do programa, que permitam a identificação e implementação de oportunidades de melhoria, a gestão e encerramento de recomendações, a capacidade de resposta às infestações, o registro dos esforços realizados e das conclusões, a formação e implementação da cultura de segurança e a integração do manejo de pragas no sistema HACCP.
Conclusão
Concluindo, a versão 9 do BRCGS elevou significativamente o nível de manejo de pragas. A abordagem evoluiu de um programa de controle tradicional para um verdadeiro sistema de gestão baseado em riscos, prevenção, análise de tendências e melhoria contínua. A norma exige demonstrar que a organização compreende as causas que favorecem a presença de pragas e que trabalha sistematicamente para eliminá-las antes que representem um risco à inocuidade alimentar. As empresas que alcançam os melhores resultados nas auditorias do BRCGS não são necessariamente aquelas que mais utilizam agrotóxicos, mas sim aquelas que desenvolveram uma sólida cultura preventiva apoiada em projeto sanitário, manutenção, limpeza, exclusão física, análise de dados e compromisso de gestão. Neste contexto, o manejo de pragas deixa de ser uma atividade operacional e passa a ser um componente estratégico de inocuidade alimentar e proteção de marcas.