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Lá vem o lobo! Como encarar os auditores

Há uma figura que representa um incômodo frequente para o controlador de pragas: o auditor. Seja em indústrias alimentícias ou no setor farmacêutico, sua presença gera apreensão.

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Há um personagem que representa um incômodo constante para o controlador de pragas: o auditor. A simples menção de sua chegada desperta nervosismo na equipe, calafrios no responsável técnico e uma corrida desenfreada para conferir pastas, relatórios e armadilhas. Esse receio quase atávico decorre, na imensa maioria das vezes, do desconhecimento sobre o verdadeiro propósito da auditoria.

Para que existe um auditor? Qual é a sua função?

Como se realiza uma auditoria? Para que servem de fato as auditorias? Essas são algumas das indagações fundamentais que o controlador profissional de pragas talvez se faça — ou talvez nunca tenha parado para refletir criticamente. Mas antes de começarmos a desvendar a dinâmica dos auditores, é indispensável olharmos um pouco para dentro de nós mesmos e de nossa psicologia. Especialistas em neurociência afirmam categoricamente que o nosso cérebro não evoluiu para ser 'feliz', ao contrário do que pregam certos coaches ou palestrantes motivacionais de autoajuda. Nosso cérebro foi moldado biologicamente para sobreviver e, com essa finalidade primária, com frequência

ele recorre a caminhos curtos ou atalhos mentais rápidos. Em certas ocasiões reagimos de forma pouco analítica e precipitada, tomando decisões impulsivas; em outras, hesitamos, parando para avaliar minuciosamente as variáveis e antecipar desdobramentos futuros antes de dar o próximo passo operacional. Por vezes, manifestamos certo pavor ou aversão natural à perda de algo que já supomos possuir, mesmo quando abdicar temporariamente desse elemento possa abrir caminho para ganhos futuros promissores que, todavia, ainda não enxergamos como certos. Chegamos até a supervalorizar desproporcionalmente aquilo que já consideramos como nosso ou aquilo que nós mesmos construímos com as próprias mãos — o conhecido 'efeito Ikea', um viés cognitivo extremamente comum em todos os setores produtivos. Quando a isso se soma a tendência inercial de evitar mudanças estruturais pelo medo da incerteza que romper o status quo acarreta, corremos o risco de estagnar completamente os métodos de trabalho na empresa de controle de pragas, reproduzindo mecanicamente uma rotina tradicional conhecida em vez de ousar trilhar rotas alternativas que impulsionem a excelência dos serviços. Para neutralizar a armadilha desses e de outros vieses cognitivos, estabelecem-se diretrizes estruturadas que apontem caminhos metodológicos seguros para administrar a confiabilidade (reliability), o risco e a resiliência operacional. Em outras palavras: garantir que nossas intervenções atinjam o desempenho esperado, delimitar as incertezas que possam nos desviar das metas e assegurar agilidade para recuperar o controle caso imprevistos aconteçam. Essas regras de governança podem ser estipuladas por nós mesmos internamente, por peritos externos independentes ou por autoridades governamentais fiscalizadoras; tratam-se, afinal, das políticas corporativas, padrões técnicos, normas de qualidade, regulamentos e legislações vigentes. A pactuação de regras claras viabiliza uma convivência harmoniosa com o nosso meio ambiente e com o mercado, rendendo vantagens inquestionáveis a médio e longo prazo. Todavia, a natureza humana é afeita a atalhos cognitivos e práticos, como já frisamos, e com demasiada frequência descobrimos brechas para esquivar-nos do cumprimento das normas, imaginando ilusoriamente que estamos economizando recursos na alocação

de nossas decisões cotidianas. No entanto, qualquer tomada de decisão acarreta desdobramentos inevitáveis. A prestigiada Universidade de Stanford conceitua a decisão como uma escolha irrevogável e irreversível entre alternativas para o direcionamento de recursos escassos; se não contabilizarmos concretamente esses recursos, estamos apenas formulando uma declaração de intenções ou, pior ainda, capitulando à inércia paralisante gerada pelo receio de sanções negativas. Como a sabedoria popular há muito ensina, a ignorância é a mãe de todos os temores: nossos medos decorrem quase invariavelmente

daquilo que não compreendemos em profundidade, e fugir desse confronto nos induz ao engano confortável de que estamos nos blindando contra o risco. Uma metodologia madura para mitigar e administrar riscos consiste em contar com o olhar externo de alguém desprovido dos nossos vieses e apegos subjetivos em relação às metas previamente estabelecidas, alguém apto a sinalizar com clareza os desvios que estejam comprometendo a resiliência do sistema operacional. Essa é rigorosamente a razão de ser de um auditor. Historicamente, os auditores — originariamente denominados 'ouvintes' na Inglaterra medieval — tinham por atribuição primordial escutar, verificar e atestar a veracidade das contas prestadas por cidadãos e administradores rurais,

muitos dos quais grandes latifundiários não letrados, validando oralmente as evidências apresentadas. Segundo a norma internacional ISO 19011, um auditor define-se formalmente como 'uma ou mais pessoas que conduzem uma auditoria com o suporte, se necessário, de especialistas técnicos'. A partir deste conceito, podemos rebater de imediato uma das queixas mais recorrentes e amargas dos controladores de pragas em relação aos auditores, quando esbravejam que não tem cabimento um profissional que 'nada entende do manejo de pragas' auditar e 'julgar o trabalho técnico de campo'. Para sanar essa assimetria técnica intervém a figura do especialista técnico, qualificado como 'a pessoa que agrega conhecimento específico ou expertise pontual à equipe de auditoria' — papel esse que, em uma relação construtiva e cooperativa, o próprio gestor de controle de pragas pode e deve desempenhar com brilhantismo. A própria norma ISO 19011 estabelece que uma auditoria nada mais é do que o 'processo sistemático, independente e documentado para obter evidências objetivas e avaliá-las imparcialmente a fim de determinar a extensão na qual os critérios de auditoria são atendidos'. Surge aqui outro vocábulo cardeal: critérios, que derivam fundamentalmente de três pilares basilares:

1. Requisitos de uma ou mais

normas de referência voluntárias que a empresa contratante decidiu subscrever; 2. políticas corporativas, manuais de boas práticas e exigências internas da organização; ou 3. requisitos legais, sanitários e regulatórios imperativos estabelecidos pelos órgãos de vigilância governamental. Para desempenhar seu mister com autoridade técnica, o auditor deve dominar com profundidade esses critérios pré-estabelecidos, os quais são examinados sob a forma de auditorias internas de primeira parte (a pedido da própria instituição), auditorias de segunda parte (promovidas por clientes sobre fornecedores estratégicos) ou auditorias de terceira parte (com vistas a certificações formais, acreditações internacionais ou homologações regulatórias). O auditor qualificado deve pautar sua conduta em 7 princípios éticos universais: Integridade profissional no cumprimento de seus deveres com honestidade e responsabilidade; Imparcialidade estrita para relatar com verdade e exatidão, sem preconceitos ou julgamentos subjetivos; Profissionalismo no domínio e emprego esmerado de conhecimentos técnicos; Confidencialidade e rigor na salvaguarda de dados industriais sensíveis; Independência funcional em relação à área auditada para evitar conflitos de interesse; Abordagem baseada em evidências fáticas auditáveis e mensuráveis; e Perspectiva baseada em riscos para identificar ameaças críticas e oportunidades de aprimoramento contínuo. Diante desse conjunto normativo, quando um auditor solicita relatórios de controle de pragas, mapeamento de armadilhas, fichas técnicas toxicológicas ou certificados de higienização, seu propósito precípuo é coletar evidências comprobatórias de que o programa atinge os objetivos de qualidade acordados, o que não significa — e jamais significou — exibir uma pilha de insetos mortos. O auditor busca verificar a conformidade sistemática dos processos preventivos que assegurem a inocuidade do ambiente e a ausência de pragas nas linhas fabris. Por sua vez, a empresa controladora de pragas tem o dever elementar de conhecer detalhadamente esses referenciais de qualidade para incorporá-los proativamente ao seu plano de trabalho antes da chegada de qualquer inspeção externa. Vale aqui resgatar uma analogia singela de nossa infância escolar. Lembremos daquelas semanas em que varávamos noites estudando exaustivamente para uma prova decisiva. No dia do exame, respondíamos às questões munidos daquela autoconfiança artificial que criamos como blindagem contra o medo do fracasso. Quando o professor finalmente devolvia as correções, éramos tomados por uma ponta de frustração e revolta ao constatar que a nota recebida não correspondia à nossa autoimagem idealizada, ainda que o resultado final estivesse longe de ser reprobatório. Por que reagimos assim? Por conta dos mesmos vieses cognitivos mencionados: consideramos injusto o julgamento alheio porque superestimamos nosso próprio empenho subjetivo. Esquecemos que o docente não estava avaliando nossas noites mal dormidas, mas sim a clareza e correção das respostas registradas no papel — ou seja, as evidências objetivas. No cotidiano do controle profissional de pragas, muitos operadores cultivam um pânico descabido das chamadas 'não conformidades'. Tentam a todo custo mascará-las ou até manipular a percepção do auditor (um erro de consequências desastrosas). Uma não conformidade não é um atestado de incompetência nem um castigo inquisitório: é tão somente o apontamento técnico do não atendimento pontual a um requisito predeterminado. O auditor tem a obrigação de documentá-la no relatório oficial, indicando com clareza o item normativo infringido. Que formidável oportunidade de aprendizado! É exatamente como se o professor, ao nos devolver o teste, assinalasse com precisão cirúrgica em cada questão incorreta o livro e a página onde podemos aprender a matéria para jamais cometer o mesmo equívoco novamente.

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