Pragas secundárias dos grãos armazenados
Em relação aos grãos armazenados, existem pragas primárias e secundárias. As primeiras possuem a capacidade de danificar o grão íntegro e são sucedidas pelas secundárias.
Ouça este artigo com a voz do seu dispositivo.

No que concerne aos grãos armazenados, existem pragas primárias e secundárias. As primeiras são aquelas dotadas da capacidade mecânica de danificar o grão intacto, sadio e inteiro, enquanto as secundárias são aquelas que requerem a presença prévia de farinhas, resíduos e grãos quebrados ou danificados derivados dos ataques primários de outros organismos. Dentro do conjunto das pragas secundárias, os besouros e carunchos constituem indiscutivelmente o grupo de maior prevalência, frequência e relevância econômica.
FAMÍLIA TENEBRIONIDAE Tenebrio molitor (L.) (Caruncho ou bicho-da-farinha amarelo) São característicos das regiões com climas
temperados, visto que exibem notável resistência ao frio severo. Aparentemente não apresentam boa adaptação a zonas puramente tropicais. Os adultos ostentam dimensões corporais que oscilam entre 14 e 20 mm de comprimento, constituindo um dos maiores insetos comensais que infestam grãos e produtos armazenados. Apresentam coloração castanho-escura a preta ligeiramente brilhante, desprovidos de cerdas espessas ou pubescência densa, com pronoto finamente pontuado e élitros demarcados por estrias longitudinais bem evidentes. Possuem asas membranosas posteriores plenamente desenvolvidas e funcionais, realizam voos durante o período noturno e são ativamente atraídos por fontes de luz artificial. Seus deslocamentos e movimentos são relativamente lentos. Cada fêmea fecundada realiza a postura de 80 a 550 ovos esbranquiçados, brilhantes, de formato ovalado ou ligeiramente reniforme. Logo após a oviposição, os ovos são envolvidos por uma substância mucilaginosa adesiva que assegura rápida e firme aderência às partículas alimentares sobre as quais foram depositados. As fêmeas podem ovipositar até 40 ovos por dia e a oviposição prolonga-se por quase 4 a 5 meses. A maturação embrionária completa-se no intervalo de 7 a 10 dias, dependendo diretamente da temperatura ambiente. Eclodem larvas ativas de tonalidade amarela brilhante e reluzente, as quais completam seu ciclo de desenvolvimento larval entre 3 e 6 meses. Atravessam a temporada de inverno e baixas temperaturas em estado de imobilidade e sem se alimentar, razão pela qual o período larval pode estender-se por até um ano ou mais. Ao longo dessa fase sofrem entre 9 e 20 ecdises, atingindo no término de seu pleno desenvolvimento até 40 mm de comprimento corporal. Pouco antes do processo de empupamento migram ativamente para a superfície superior da massa alimentar da qual se nutrem, permanecendo aí em repouso por alguns dias; a pupa recém-formada é branca e vai gradualmente adquirindo tonalidade castanho-amarelada. O estágio pupal pode durar 6 dias durante o verão e estender-se por até 18 dias no inverno. Apresenta normalmente uma
Tenebrio molitor (L.)
geração anual, ou até duas sob regimes de temperaturas favoráveis. Os insetos adultos sobrevivem entre 6 e 9 meses mesmo em jejum prolongado. Nutrem-se primordialmente de farinhas, cereais moídos, farelos, grãos em más condições fitossanitárias, sendo capazes de consumir uma ampla diversidade de substratos de origem vegetal e animal, tais como biscoitos, pães, restos de carnes secas, couros, carcaças de insetos mortos e madeira em decomposição. Com elevada frequência, os focos inaugurais de infestação originam-se em ninhos de pombos e outras aves sinantrópicas instalados nos telhados de armazéns e estruturas industriais, ou em sujidades e resíduos acumulados em calhas e beirais. As larvas exibem hábitos noturnos marcantes e buscam refúgio em ambientes escuros e úmidos. Colonizam armazéns, porões, adegas, moinhos e silos de grãos, alojando-se em frestas, cantoneiras e nichos onde se acumulam pós e matérias alimentares moídas por períodos prolongados. É categorizada como praga secundária de grãos e produtos armazenados, muito embora suas larvas avantajadas consigam atacar e danificar grãos inteiros mantidos imóveis por longos períodos; contudo, não representam risco massivo pelo ritmo reprodutivo moderado. Sua presença atesta deficiências higiênico-sanitárias e ausência de limpeza regular. Pelo tamanho avantajado, as larvas são amplamente aproveitadas na nutrição de animais de aquário, répteis e aves, sendo comercializadas como isca viva de pesca sob a designação de “tenébrio” ou “larva dourada”, altamente valorizada pelos pescadores esportivos. Tribolium confusum (D.) (Besouro-confuso-da-farinha). É um inseto cosmopolita que nos trópicos e climas quentes encontra-se presente em todos os estágios ontogenéticos durante todo AS PERDAS OCASIONADAS POR PRAGAS NA CADEIA AGROALIMENTAR SÃO ABRUMADORAS, SOBRETUDO SE ANALISARMOS A DIVERSIDADE DE ÁCAROS, INSETOS, ROEDORES E OUTROS ORGANISMOS QUE SE MANIFESTAM DESDE A IMPLANTAÇÃO DOS CULTIVOS ATÉ O PRODUTO FINAL o ano. Visto que suporta perfeitamente as baixas temperaturas, o rigor climático das regiões frias não impede sua multiplicação agressiva em moinhos de trigo. Mede entre 3 e 4 mm de comprimento, exibindo corpo de aspecto alongado e ligeiramente deprimido dorsoventralmente. Apresenta tonalidade castanho-avermelhada brilhante. As antenas ampliam-se de forma gradual e contínua a partir da base em direção ao ápice. Os olhos compostos são pequenos, circulares, e a distância transversal que os separa corresponde a três vezes o diâmetro do olho. O protórax apresenta-se densamente recoberto por diminutas pontuações escuras. Os élitros ostentam estrias longitudinais tênues difíceis de visualizar a olho nu. Não é capaz de realizar voos. A fêmea oviposita até 500 ovos ou mais entre as partículas de farinha ou resíduos de grãos, recobertos por uma secreção pegajosa que facilita sua fixação a
qualquer superfície, potencializando a contaminação e disseminação passiva. Os ovos incubam em período de 5 a 12 dias, originando larvas diminutas, esguias, cilíndricas, que atingem cerca de 6 mm de comprimento, dotadas de coloração branca matizada de amarelo-caramelo, assemelhando-se morfologicamente a larvas-arame. O número de instares larvais oscila, conforme diferentes pesquisadores, entre 6 e 11 mudas sucessivas. O besouro-confuso empupa diretamente no meio alimentar no qual se desenvolveu, inteiramente desprovido de casulo protetor. A pupa apresenta coloração inicial esbranquiçada, tornando-se gradualmente amarelada, acastanhada e finalmente transformando-se no inseto adulto imaginal. O ciclo biológico total requer entre 6 e 8 semanas e os adultos exibem sobrevida de 12 a 18 meses. Configura uma clássica praga secundária de cereais íntegros, revelando-se incapaz de romper e atacar o grão sadio, limpo e seco. Tanto os indivíduos adultos quanto as formas larvais alimenTribolium confusum (D.)
tam-se essencialmente de sementes quebradas, partículas fraturadas por outras pragas primárias, resíduos do beneficiamento e moagem de cereais, farinhas, sementes de oleaginosas moídas e seus derivados, biscoitos, nozes partidas e variados produtos farináceos industriais. Assume a condição de praga primária devastadora especificamente em farinhas, farelos de leguminosas e tortas de oleaginosas. É extraordinariamente comum em moinhos de trigo, fábricas de massas e indústrias de moagem. Ocorre com frequência em sacarias vazias com resquícios de farinha, pellets e resíduos fareláceos de trigo. Seus hábitos nutricionais são polífagos e ecléticos, prosperando com intensidade onde as rotinas de limpeza periódica são negligenciadas. Existe outra espécie congenérica expressiva, Tribolium castaneum, cujo ciclo ontogenético guarda íntima similitude biológica com T. confusum. Sob a ótica morfológica diagnóstica, cabe ressaltar que T. castaneum exibe coloração muito próxima, porém fosca, sem o brilho reluzente de T. confusum. Além disso, no caso de T. castaneum a distância que separa os olhos é aproximadamente equivalente à largura de um único olho, e os três últimos artículos da antena compõem uma clava claramente demarcada. Diferente do besouro-confuso, T. castaneum é um voador vigoroso, sendo comumente encontrado nos campos e cultivos. Originário do subcontinente indiano, possui distribuição cosmopolita, exibindo preferência por regiões térmicas sensivelmente mais aquecidas que aquelas toleradas por Tribolium confusum.
FAMÍLIA SILVANIDAE
Integram esta família coleópteros diminutos caracterizados por apresentarem antenas compostas por 9 a 11 artículos tipicamente filiformes finalizadas por uma clava terminal conspícua. Apresentam comprimento corporal médio oscilando entre 1,5 e 5,5 mm. Seu corpo apresenta aspecto alongado, margens laterais paralelas, conformação achatada e superfície pubescente. Oryzaephilus surinamensis (L.) (Caruncho-serrilhado ou besouro-dente-de-serra). Deve seu nome vernáculo à estrutura anatômica ímpar do protórax, que ostenta seis projeções agudas semelhantes a dentes de serra em cada bordo lateral. Este besouro mede de 3 a 3,5 mm de comprimento corporal, apresenta pubescência fina, coloração variando de castanho-avermelhado a marrom-escuro e exibe no pronoto duas depressões longitudinais nítidas. Os élitros são estreitos e demarcados por estrias longitudinais finas; conquanto suas asas membranosas sejam anatomicamente desenvolvidas, o inseto muito raramente levanta voo. As fêmeas realizam a postura de 45 a 375 ovos dispersos soltos na massa alimentar ou abrigados nas fraturas dos grãos. Eclodem larvas diminutas que atingem ao final do desenvolvimento entre 2,5 e 2,8 mm de comprimento, dotadas de corpo amarelo-pálido ornado com faixas transversais escuras no dorso do tórax e do abdômen. O estágio larval dura de 15 a 20 dias. Antes de empupar, as larvas constroem um abrigo casular unindo fragmentos do alimento com exsudatos secretados, fixando-se à superfície sólida pela extremidade caudal. Permanece nessa fase pupal de uma semana a 20 dias, emergindo na sequência o imago adulto. O ciclo vital completo pode cumprir-se em intervalo de 22 dias até 108 dias em condições amenas. Desenvolve entre 2 e 5 gerações ao longo do ano. Adultos desta espécie sobrevivem usualmente de 6 a 10 meses, havendo registros bibliográficos
Oryzaephilus surinamensis (L.) de indivíduos que alcançaram até 3 anos de longevidade. Tanto as larvas quanto os besouros adultos habitam lotes de grãos partidos ou previamente perfurados de trigo, arroz, aveia e cevada, infestando massas secas, farinhas de trigo, farelos, açúcar cristal, fumo picado e uma diversidade de produtos alimentícios secos destinados ao consumo humano.
FAMÍLIA BOSTRICHIDAE Esta família de besouros caracteriza-se por apresentar antenas com 9 a 11 segmentos finalizadas por uma clava ou maça apical serrilhada de 2 a 3 artículos alargados. O comprimento corporal dos indivíduos varia entre 2 e 20 mm. Apresentam conformação esguia, delgada, cilíndrica e compacta. Em geral ostentam coloração marrom-escura a preta opaca. O pronoto desenvolve-se de maneira marcante na forma de um capuz globoso anterior que recobre a cabeça quando vista dorsalmente. Suas larvas são esbranquiçadas a amareladas, carnudas, encurvadas em forma de letra C, com cápsula cefálica escura endurecida, desprovidas de pernas funcionais e dotadas de fortes mandíbulas raspadoras. São comumente detectadas em armazéns de grãos. Ocorrem também espécies volumosas desta família atacando diretamente peças de
madeira beneficiada e mobiliário nobre. Rhyzopertha dominica (Besourinho-dos-cereais ou pequeno perfurador dos grãos). É uma praga de provável origem tropical amplamente distribuída pelas regiões quentes e subtropicais de todo o globo. Larvas e adultos atacam com extrema agressividade grãos de arroz, aveia, cevada, milho, trigo, centeio e sorgo. As formas larvais desenvolvem-se também em farinhas amiláceas e rações concentradas. Têm a capacidade mecânica de perfurar e roer materiais celulósicos rígidos como papelão espesso e lâminas finas de madeira compensada. Geralmente não colonizam grãos inteiros de oleaginosas e leguminosas puras. O adulto ostenta corpo cilíndrico alongado,
com a porção caudal truncada e arredondada. Apresenta cabeça volumosa e deflexa, parcialmente oculta pelo capuz pronotal rugoso ornado de tubérculos granulares ásperos. Antenas terminadas em clava pronunciada de três segmentos serrilhados. Asas funcionais com excelente aptidão para o voo contínuo; élitros densamente esculpidos com fileiras longitudinais de pontuações profundas. Mede entre 2,5 e 3 mm de comprimento corporal e exibe coloração castanha a marrom-escura. As fêmeas ovipositam entre 150 e 500 ovos brancos a rosados, dispostos individualmente ou em pequenas posturas agrupadas, soltos entre os grãos ou aderidos às sementes. O período de incubação dura de 5 a 14 dias. As larvas recém-eclodidas são ágeis, pilosas, curvadas e perfuram galerias na massa dos grãos onde completam seu desenvolvimento ao longo de 20 a 35 dias. O empupamento ocorre tipicamente no interior das sementes escavadas. O ciclo ontogenético total estende-se por 4 a 10 semanas, com adultos vivendo de 4 a 6 meses e desenvolvendo entre 3 e 5 gerações anuais ininterruptas sob clima quente.
Rhizopertha dominica
